Chiado: O Incêndio que colocou a rádio no mapa

A casualidade de uma janela com boa vista permitiu que a rádio noticiasse antes que os bombeiros chegassem. No fim do mês de Agosto de 1988 um gigante incêndio desfigurou o coração de Lisboa e a TSF, ao reportar como tudo foi acontecendo, afirmou-se, no meio da tragédia, como “a rádio que mudou a Rádio” em Portugal.

O relógio ainda não marcava as cinco da manhã quando uma luz amarela, intensa, começou a sobressair na zona do Chiado.

Naquela madrugada de 25 de agosto de 1988 Nuno Roby Amorim, estagiário na recém-criada (29 de fevereiro daquele ano) rádio TSF, viu o sono, ou a falta dele, torná-lo testemunha do incêndio que mudou o rosto do Chiado, em Lisboa. "Fiz toda esta reportagem da janela de minha casa. Morava na Calçada de Santana, num terceiro andar com uma vista incrível, não sei porquê naquela noite não estava a conseguir adormecer e vi muito cedo as chamas. Liguei para a rádio e comecei a entrar em direto." O ponto de reportagem privilegiado de Nuno Roby permitiu-lhe contar primeiro que todos o que acontecia. “

O fogo começou nos Armazéns Grandella, na Rua do Carmo. Destruiu 18 edifícios, uma área à volta de oito hectares, matou duas pessoas e deixou quase meia centena de feridos.

Noutro ponto da cidade, José Manuel Mestre, que dava os primeiros passos no jornalismo e ainda vivia numa residência de estudantes, estava meio-acordado, agarrado a um rádio-despertador, que lhe trouxe a notícia em primeira mão: "foi o Nuno Roby que me acordou, com o relato das chamas no Chiado." Já nem passou na rádio, foi direto para a zona que ardia.

José Manuel Mestre tinha uma vantagem competitiva em relação a todos os outros repórteres, ele fazia dos tubos dos rolos da máquina fotográfica que usava nos tempos livres mealheiro e assim tinha vários com moedas de 25 escudos.

"Trouxe dois ou três tubos cheios de moedas que me permitiram ser itinerante. Em cada sítio onde eu via uma coisa nova ou um pormenor que pudesse acrescentar eu corria à primeira cabine para contar."

A TSF esteve horas e horas em direto, consecutivamente

Logo de manhã estavam 20 repórteres da TSF no terreno, muito poucos passaram pela redacção, tendo ido directamente até ao local do fogo. Francisco Sena Santos era então o editor do turno Manhã 1 (responsável pelos primeiros noticiários da manhã, a partir das 07h), foi ele que “agarrou” a emissão especial que a TSF montou, ainda antes das 07, e coordenou, ao mesmo tempo que estava em antena, os repórteres que se foram multiplicando pelos pontos de reportagem.

Francisco Sena Santos

Uma das coisas que os dois repórteres não esquecem é a dificuldade que os bombeiros tiveram para combater as chamas.

Nuno Roby, da janela de casa, via como eles não conseguiam chegar perto do fogo. "O presidente da Câmara da altura, Krus Abecassis, tinha feito aí uns bancos e eles impediram o normal funcionamento e manobras dos bombeiros e das polícias." O combate às chamas fez-se, sobretudo no início, à distância. “Eu, da vista que tinha do Elevador de Santa Justa para aqui, percebia que não havia bombeiros neste espaço [Rua do Carmo]. Havia uns quadrados, que eram uns bancos que faziam uns quadrados, que não permitiam que os bombeiros passassem. Lembro-me que veio uma viatura Magirus do aeroporto, enorme, que se posicionou aqui, na Rua Garret, e o combate ao fogo era feito daqui e de lá de baixo da Rua Nova do Almada, mas não conseguia ser feito um combate naquela zona”, conta José Manuel Mestre.

Às 11h da manhã daquele 25 de Agosto, a TSF anunciou que o incêndio estava totalmente controlado.

A emissão especial que serviu para acompanhar tudo o que foi acontecendo no Chiado, e à volta dele, foi ouvida apenas na zona de Lisboa, uma vez que a rádio não se ouvia no resto do país, visto ter uma licença de rádio local. Ainda assim, a cobertura que a TSF fez do incêndio do Chiado valeu-lhe o primeiro Prémio Gazeta, do Clube dos Jornalistas. Um prémio coletivo, para toda a redação.

Timeline Interactiva

- O incêndio do chiado hora a hora

5h

O Diário de Notícias (DN) de 26 de agosto de 1988 escreve que «eram cerca de cinco horas quando uma pequena coluna de fumo começa a esgueirar-se pela fenda do vidro de uma das montras do Grandella».

As corporações de bombeiros são alertadas pelas 05:20 e começam a ser mobilizadas. Os bombeiros sapadores no local comunicam a situação e pedem reforços. Monta-se no local um comando avançado.

Sobre o projeto O DN diz que, a esta hora, o edifício dos Armazéns Grandella «já estava transformado numa gigantesca tocha». Entretanto, o fogo propaga-se aos edifícios em redor, incluindo os Armazéns do Chiado. A EDP corta a eletricidade na rua Nova do Almada, Boa Vista e praça da Figueira.

O Diário de Lisboa conta que «as sirenes de carros ecoam por Lisboa e os populares amontoam-se nas ruas». Há «colunas de fumo espesso por cima dos prédios».

As estações da EDP que serviam a praça do Comércio e o Chiado foram desligadas.

O Diário de Lisboa diz que, nesta altura, «apenas as paredes exteriores do edifício dos Armazéns do Grandella estão de pé».

São tornadas públicas as primeiras suspeitas de fogo posto.

Os Armazéns do Grandella e os Armazéns do Chiado estão já completamente destruídos. O fogo avança. O Diário de Lisboa escreve que «a rua do Carmo era um mar de chamas» e que a «decoração camarária da rua» provocara «graves dificuldades de acesso» dos 120 homens que tentavam combater as chamas à rua.

O vento piora o cenário. A esta hora, a situação agrava-se na rua Nova do Almada. Há chamas em todo o quarteirão superior da rua. O fogo avança em direção à rua Ivens. Na esquina da rua do Crucifixo com a rua da Vitória as chamas propagam-se.

Vinte e dois autotanques, com 22 mil litros de água e seis autoescadas encontram-se no local do incêndio, que agora chega também à rua Garrett.

Corporações de bombeiros de Lisboa e arredores estão no terreno. Nos céus há helicópteros da Força Aérea que avaliam a extensão do incêndio e dão indicações aos bombeiros.

A esta hora, conta o Diário de Lisboa, «o fogo é limitado a norte junto ao elevador de Santa Justa, mas alastra-se aos Armazéns Jerónimo Martins. Da esquina da rua do Ouro com a rua da Vitória para cima tudo está a arder». Vista da ponte 25 de Abril, «Lisboa é uma enorme coluna de fumo». Os bombeiros, lê-se, «pedem leite às populações». Os hospitais e meios de socorro entram em ação.

Por esta altura, uma conduta de água rebenta e a pressão de água nas mangueiras diminui.

O edifício da Valentim de Carvalho, na esquina da rua Garrett com a rua Nova do Almada, estava, por esta hora, desfeito.

O DN escreveria, no dia seguinte, que «as chamas destruíram um património histórico de valor incalculável», como números de revista de Vasco Santana. «Bilhas de gás rebentam. Nas ruas, pessoas em pijama têm nas mãos as poucas coisas que conseguiram salvar das suas casas em chamas», descreve o Diário de Lisboa. Continuam a chegar canhões de água ao local.

A esta hora há já registo de sete feridos. O incêndio não transpõe a rua do Ouro, mas avança na colina do Chiado. O Presidente da República, Mário Soares, faz o primeiro comentário à situação: «É uma catástrofe. É um incêndio de proporções incalculáveis, de uma gravidade espantosa. É um desastre nacional», diz.

Há água a escorrer pelas ruas, fachadas de prédios ruem. Os bombeiros queixam-se de falta de meios. As comunicações, o gás e a eletricidade estão cortados em toda a baixa.

Os bombeiros afirmam que fogo está quase apagado.

O fogo já só está ativo na calçada do Sacramento e os bombeiros concentram-se aí para impedir que as chamas cheguem à escola Veiga Beirão. O quartel do Carmo e as ruínas estão fora de perigo. Realiza-se uma reunião de emergência no Serviço Nacional de Proteção Civil.

«Os bombeiros pedem alimentos, para além de leite», escreve o Diário de Lisboa.

A esta hora anuncia-se já que, salvo imprevistos, o incêndio está circunscrito, mas as viaturas dos bombeiros permanecem no terreno.

Segundo O Independente, os bombeiros confirmam, a esta hora, que o incêndio está quase extinto.

Último balanço das autoridades: um morto, 42 feridos.

Posteriormente, o número de mortos foi elevado para dois (um bombeiro que tinha ficado ferido com gravidade e um morador), bem como o número de feridos, que, segundo os Sapadores Bombeiros, foi superior a 60.